quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

contas inacabadas


é fácil perceber como uma coisa começa, é sempre pelo fim.
seja o fim nobre da procriação ou o sexo selvagem numa tarde de chuva, seja o dinheiro ou o lazer, a felicidade ou o sucesso e todas essas antíteses cujas soluções repousam nas prateleiras de auto-ajuda das livrarias.
essa história começou pelo começo:

-porque você me ama?

e se pudéssemos organizar frases ditas durante todo um relacionamento por seu impacto nele, essa que ela falou seria o começo do fim.

-não sei...por tudo que você é? - ele respondeu sem saber como aquilo seria o bater de asas do seu tufão pessoal.

-não...mas você me ama como a certeza do sexo diário? Como a pessoa que convive com todas suas fisiologias , olha pra sua cara da mesma maneira e ainda te prepara café da manhã nos fins-de-semana?

-é acho que é assim que eu te amo.

-então não é o mesmo amor que você teria com a futura mãe do teu filho? Ou com a velhinha que vai ficar do teu lado no seu leito de morte?

-acho que as duas coisas não são excludentes, são?

-Lógico que são! bem como seria uma terceira coisa, totalmente diferente, se voce me amasse por todos os motivos supracitados.

-então, teóricamente, eu teria que listar ,minunciosamente, todos os motivos pelos quais eu te amo para que o sentimento seja validado? Bom saber que seu amor por mim pode ser medido numa lista finita de coisas


e é importante perceber que, até ele falar essa última frase, aquilo tudo não passava de provocação de casal.


-não necessariamente, se você souber citar o ponto em que tudo isso converge.

- Então me diz, porque eu?

-porque é você que eu quero (queria) que enxugue o resto das minhas lágrimas.

-Então o amor, nada mais é, que uma frase feita pensada no momento que se decide senti-lo por alguém.

-Não, o amor é a inércia que te faz querer alcançar algo.

-no seu caso, suas lágrimas.

-não, no meu caso, saber que você esteve lá pra enxugá-las até eu morrer... Então, da mesma maneira que entrar num carro e dirigir sem destino, até sua gasolina acabar não é exatamente uma viagem...acho que o que você sente por mim não é exatamente amor.

-É...talvez não seja.

-acabou então?

-não pra mim, pra você?

-é...não.



E é assim que histórias cronologicamente corretas (não) terminam;
Mal.



/foi!

domingo, 3 de janeiro de 2010

amor no gerúndio






ela ligou
ele atendeu

-boa noite senhor, o senhor estaria interessado...

-não!

e desligou o telefone

e é numa dessas que muitas coisas vão.






/eu pensei "quero escrever uma história bem curta". superei minhas próprias expectativas.

//gostaria tanto de ter credibilidade o suficiente pra que pensassem que a pequenisse desse texto e sua clara efemeridade, passasse como um minimalismo cheio de significado, e não preguiça(que se chamaria "bloqueio de escritor" se eu tivesse tal credibilidade)!

domingo, 15 de novembro de 2009

era uma vez



era uma vez um cara
ele tinha um blog, mas ele também tinha faculdade, namorada, livros, séries e filmes.
aí então ele ficou muito tempo sem escrever, mas prometeu que logo que o quesito faculdade dê uma folga ele volta pra sua meia-dúzia de leitores-pingado.
e viveu feliz pra sempre



/baseado em fatos reais

domingo, 11 de outubro de 2009

31 de outubro



depois que o susto passou, ela perguntou
-MAS PORQUE VOCÊ FEZ ISSO?

-não sei...

-como assim não sei? você me trai, no dia do nosso aniversário de namoro e diz que acontece por razão nenhuma!

-trágico né? parece até que foi planejado..

-não me vem com seu cinismo, filho da puta, que aquela vadia tinha? ela ia dar a bunda pra voce? porque se fosse isso eu dava a bunda pra você...

-por favor, eu não colocaria tudo a perder por mais bunda ou menos bunda...

-é, mas você colocou tudo a perder por uma diversãozinha extra-conjugal, por uma boceta diferente, por uma aventurazinha...

-ah, te garanto que tenho propósitos maiores que esse!

-ah é? e quais são.

-espalhar a semente da minha raça alienígena pelo planeta Terra.

-para de graça cara!!

-é verdade, minha sociedade abomina todo e qualquer sexo para procriação com a amada...então por isso eu transei com a tal garota, pra garantir que voce fosse a regente na colônia que minhas crias e meus compatriotas estabelecerão na Terra em 3 anos.Você poderá reinar tudo isso, só terá que aceitar o eventual sexo para fins reprodutivos com outras mulheres e o fato de que nunca poderemos ter filhos biológicos.

quando ela começou a virar as costas ele mostrou a prova cabal de que falara a verdade.



FIM.










(agora, o final original que acabou virando o alternativo era bem mais óbvio, ele só traiu a esposa pra brigar, porque, quando estava feliz não conseguia escrever,precisava de crise no casamento pra se inspirar e escrever algum livrinho depressivo do tipo que faz você sentir pena de si. O autor, porém, por não concordar com tal atitude e por achar que já escreveu algo parecido, resolveu escrever o final mais legal, apesar de achar que um toque de zumbis o tornaria ainda melhor)


epílogo:


seis anos se passaram, e eram um feliz casal de imperadores na Nova Terra, seis anos desde que ela não se arrependeu em não virar as costas para o Marido que acabara de se revelar um alien, mostrando o aparelho de tecnologia extra-terrestre capaz de reanimar corpos mortos para criar um exército de dominação mundial, como prova cabal de sua não-humanindade...seis anos de que se convenceu que não existia ,na Terra, uma pessoa pessoa que ela amasse tanto quanto ele...de fato, nunca existiu.


(agora sim)





/ahhh se a saudade de escrever bem fosse a única que me atingisse nessa madrugada

domingo, 13 de setembro de 2009

um lobisomem irlandês a meio caminho de casa






ele soube!
quando viu aquela grande lua minguante, que ousava desafiar a gravidade e o atraía, ele soube. Soube o que acontece quando morremos.
Não tinha idéia dos detalhes, não sabia se haveria um velho barbudo ou sete virgens o esperando, mas ele sabia quando viu aquele sorriso cheio de crateras no preto da noite que quando perecesse poderia manipular TUDO, inclusive a lua e o tempo.
sabia isso por ter certeza que o satélite sorridente sorria o sorriso da mulher que amava.
Ele havia entendido que a mulher para quem dedicara todo seu amor, morreria (dali muitos anos, ele esperava) e voltaria no tempo, pegaria toda a fila de espera do além para eventuais manipulações lunares a fim de passar alguma mensagem para um ente querido no passado (ele tinha certeza que era algo muito concorrido, quantas pessoas já não prometeram "dar a lua" a seus amores?)e acalmaria seu coração naquela noite com um sorriso que dizia "obrigado por tudo".
Como ele sabia de tudo isso? ele sabia que seu amor o conhecia muito bem, e só fazendo aquilo com a lua pra ele ter um insight desses.



/sou o fantasma escritor, peguem seus alfarrábios moçada!

domingo, 23 de agosto de 2009

C8 H10 N4 O2
final

Por Bruno e Bárbara Bretanha

Parte 1
Parte 2



Andaram lado a lado, por uma rua fria e quieta em um final de tarde melancólico.Foi só então que notou onde aquilo tudo havia chegado, eles não se olhavam mas sentiam que deviam falar algo, eles não tinham rumo mas eram guiados um pelo outro. Só então ele tomou uma atitude rara, quebrou o silêncio:

“O que te fez assim? Que caminhos você seguiu pra se tornar essa garota?”

“Acho que os caminhos não importam tanto no momento quanto o destino final, e chegamos ao nosso.”

“O metrô – pelo visto o futuro não nos reserva grandes cartas.”

“Você se surpreenderia.”

Eles desceram as escadas da estação, galgando os degraus no mesmo silêncio de antes, compenetrados, cada um com seus pensamentos do que lhes reservaria aquele lugar tumultuado longe da paisagem cinzenta da cidade. Ainda em silêncio compraram seus bilhetes, passaram pelas catracas, e foram andando em direção ao fluxo de gente que seguia como sangue pelos canais. Ele se voltou para ela.

“Para onde estamos indo”

“Para dentro.”

E empurrou. Caíram num lugar apertado, com cheiro de amoníaco, ardia no fundo do nariz, queimando de um jeito quase gostoso, o pé dele bateu num esfregão, tentou se apoiar e sua mão atingiu um frasco de detergente, melando sua mão. Ela bateu a porta atrás de si e o espaço entre eles era o de suas respirações, depois nem isso. Perna contra perna, os seios dela subitamente delineados no peito dele, ele engoliu em seco. Ela soltou uma risada, soltando suas mãos da porta e trazendo-as para os cabelos dele, brincando com as mechas revoltas, deixando que deslizassem para baixo devagar, pelo pescoço, para seu peito, e então parando, como se esperasse resposta.

Ele realmente não era do tipo que respondia, justo o cara das respostas prontas pra derrubar a moral de qualquer pessoa, estava ali sem reação. Havia esquecido de agir, queria se deixar levar pelo toque firme e quente. Abriu a boca para falar, mas logo lembrou que lhe faltava ar, deu o melhor de si e tentou fazer o papel do Ying daquele Yang, o Frio daquele calor, a morte daquela vida.Simplesmente colocou o dedo frio na face quente e o deslizou, de maneira leve e vacilante pelo pescoço, descendo até o colo, por entre os seios. Nesse momento seus pensamentos já não faziam mais sentido, o corpo não obedecia o cérebro, o coração não obedecia o cérebro, e então ele a beijou de uma maneira, que até hoje ele nunca admitiu ser, extremamente apaixonada; tentou se afastar quando viu que tinha colocado tanto sentimento nos lábios, mas não conseguiu; os braços dela não impediam, nem o olhar, nem mesmo a limitação espacial...ele não ta conseguiu, simplesmente porque, não havia sentido aquilo em séculos, foi um velho vício voltando a atacar.

E então subitamente se podia respirar novamente, subitamente eram lançados
novamente na realidade. No metrô as pessoas passavam indiferentes.
“Então é isso.”, ela disse.

“É! É? o que exatamente foi “isso” ? “

“Um despertar. Um pouco de realidade. Um período na baleia. Intervenção. Você pode chamar do que quiser, eu suponho, eu gostaria que você pensasse nisso como um pouco de açúcar.“

Ela sorriu pelo que seria a última vez e tocou seu rosto antes de sumir escadas acima. Levando a mão onde a dela havia estado ele podia sentir o detergente como um souvenir, súbito sentiu uma vontade incrível de cantarolar essa música que não ouvia há muito. Entrou no próximo trem que passava sem saber ao certo para onde ia.










/fim

//a vibe do momento é discutir com bigodinho pintado na cara

terça-feira, 11 de agosto de 2009

C8 H10 N4 O2
Parte 2

Por Bruno e Bárbara Bretanha

Parte 1





“você é boa demais nisso pra eu te deixar partir sem pegar umas dicas, posso me sentar?” ele disse.

“Está atrasado.”

“você é sempre assim? Sexo com você deve ser uma experiência inesquecível...e não digo no bom sentido”

“Entendo porque pense assim, você não deve ter boas experiências, influencia seu julgamento.”

“Pra falar a verdade, você está certa...”
Disse enquanto ia se sentando sem ser convidado.

“Bem,” ela lançou-lhe outro daqueles sorrisos breves, “Não perca as esperanças, ainda há tempo de se consertar isso. Mas eu estava brincando, faz parte do nosso pacto, sabe, você tem o direito de sentar comigo.”

“Ah, mas que pena...sentar aqui como um fora da lei me soava bem mais excitante...enfim, sobre o tal pacto, quais são as outras condições que ele implica?”

“Hmn... Vejamos, creio que você disse algo sobre me dar, também...”

“O que eu andei bebendo? Oferecer isso é contra meus princípios, e me assusta também sua vontade insaciável...”

“Qual o problema de gostar de chá doce? Enfim, se você tem princípios tão rígidos deveria se lembrar melhor das coisas que pactua, não é mesmo?”

“Ahhh, falava sobre o chá...Bem, para falar a verdade tem um grande problema sim, chá doce não é café...chá doce é a saída dos fracos das amarguras da vida!”

“Não vejo porque sofrer desnecessariamente, muito melhor do que ficar curtindo a mágoa passada. Café é escapismo de quem não tem coragem de seguir em frente e encarar a vida.”

“Aí que você se engana, meu café amargo só ajuda a diminuir meus padrões de felicidade, assim fica mais fácil para que terceiros me façam feliz. Você por exemplo, no auge da sua arrogância tem sido o ponto alto do meu dia.”

“Embora tenha sido um bom insulto, querido, foi meio desconexo, assim... Como café diminui padrões? Boa tentativa, mas não colou.”


“Muito simples, tome café quente e sem açúcar um dia pra ver ele ser estragado, vai queimar sua boca, o gosto ruim não vai querer te deixar...vai ser bem ruim. Agora tente fazer disso uma rotina, você se acostuma com a amargura, com as queimaduras e qualquer menininha que te desperte o mínimo de interesse e que resolva te abordar num café, te faz uma pessoa mais feliz.”

Ela fitou-o por um instante, como se pensando no que ele acabara de dizer e em tudo o que havia sido dito até então. Ele estava sentado à sua frente, com o líquido ofensivo em um copo de papel com tampa plástica. Ainda galáxias distante. Sorriu.

“Sabe, eu não entendo porque, se é tão ruim, você compra tanto, sabe... É para aumentar as possibilidades de felicidade? Eu acho que você deveria fazer o contrário,” ela estendeu sua mão e pegou o copo,” Não que eu não entenda de infelicidade – nossa isso realmente tem um gosto horroroso- mas eu acho que você deveria realmente é aumentar seus padrões.”

E retirou a tampa, despejando todo o conteúdo no belo carpete vermelho do café que foi lentamente ficando mais escuro.

“Vejamos agora se eu ainda consigo ser o ponto alto do seu dia. Acho que assim é mais divertido. Chá?”

A face de susto pelo desperdício de café, foi logo tomada por aquele sorriso orgulhoso, como se ela fizesse justamente o que ele esperava; tentou não deixar isso transparecer, mas foi em vão:

“Eu realmente não sou do tipo que toma chá, mas mesmo sem sua bebida açucarada, eu te garanto que estou tendo um bom dia....mas você ainda me deve um café”

“Não se preocupa, eu dou um jeito de te compensar.”

“Não sei como você queria que isso soasse, mas pra mim pareceu bem animador.”
Disse enquanto se levantava, e mesmo evitando demonstrar, esperava que ela o seguisse.

Tomou o último gole de sua bebida e foi até o balcão jogar o recipiente fora, a essa hora ele já estava na porta, indo embora sem ao menos olhar para trás.

“Hey! Você não se despede!”, alcançando-o.

“Sim, mas só quando vou, de fato, me despedir”



/continua